´Deficiência não é ponto de chegada e sim de partida´, por Anderson Barbosa

 ´Deficiência não é ponto de chegada e sim de partida´, por Anderson Barbosa 

O passo ainda é lento, mas a base de garra, competência e responsabilidade as pessoas com deficiência vêm galgando espaços nos postos de trabalhos e liderando comunidades inteiras.

Mostrar que são capazes em um mundo que sempre quis enxergar-los como pessoas debilitadas para ter uma vida socialmente ativa requer ‘espírito de guerreiro’. Isso porque as críticas, preconceitos e estereótipos tendem a continuar existindo por mais algum tempo.

Os números do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2000, mostram que esta população tem uma grande representatividade em todo o país. Cerca 24,5 milhões de brasileiros (14,5% do total da população) engrossam as estatísticas das pessoas que apresentam algum tipo de deficiência. Em Sergipe são 285.823 pessoas (16% da população total), sendo que em Aracaju o número é de 67.534 pessoas (14,63% da população do Estado).

É tanta gente, que se faz necessária a criação urgente de políticas sociais que vislumbrem a integração dessas pessoas no convívio comunitário, de onde muitas vezes são ignoradas. Um dos motivos, a falta de preparo da sociedade para respeitar as diferenças.

Nas Casas Legislativas, nos pequenos e grandes centros, alguns projetos tentam diminuir as barreiras, porém os passos são muito mais lentos do que se imagina. No Congresso Federal, desde 2003 existe uma discussão sobre a criação do Estatuto das Pessoas com Deficiência, mas até agora não cegou a ser votado em plenário.

Um mundo integrado, como defende muitos pensadores da inclusão, é aquele em que as necessidades de cada cidadão são atendidas. E como seria bom que isso acontecesse…

Já imaginou sair de casa para o trabalho e encontrar no coletivo (ônibus) um motorista que não possui uma das pernas, ou ser atendido por uma recepcionista que não enxerga, ou ainda trabalhar ao lado de um colega que não ouve? Pode até parecer um sonho utópico, mas isto já é realidade e não é nada sobrenatural.

Ter uma deficiência física não significa colocar um ponto final na história do ser humano. O fato de nascer ou adquiri-la não pode, nem deve ser encarado como um obstáculo para aqueles que acreditam em sonhos e lutam até o fim para que eles realmente aconteçam.

Muitos são os casos de pessoas que diariamente descobrem novas possibilidades de viver e ser feliz. Cidadãos que não se entregaram ao fato de estar em uma cadeira de rodas, de necessitar dos olhos de alguém para enxergar ou ainda de utilizar as mãos e os ouvidos do próximo para escutar os sons da vida. Loucura? "Mais louco é quem diz que não é feliz".

Quem não se recorda do trágico acidente envolvendo o vocalista da banda Paralamas do Sucesso, Herbert Viana, em fevereiro de 2001, que por pouco não perdeu a vida com a queda do monomotor? Depois do acidente (é bem verdade), o músico passou a ter como companheira a cadeira de rodas, mas não se acomodou a essa condição e continua desempenhando com competência a arte nos palcos mundo afora.

Herbert Viana não é exceção, é um exemplo que serve como uma mostra de milhares de pessoas que se encontram em situação semelhante e acreditaram que vale a pena VIVER.

Precisa de outros exemplos? Que tal o trabalho desempenhado pelo mestre Aleijadinho? Ou as 14 medalhas de ouro, 12 de prata e sete de bronze, em um total de 33 medalhas que o Brasil conquistou nos Jogos Paraolímpicos de 2004, em Atenas, contra cinco de ouro, duas de prata e três de bronze adquiridas pelos atletas sem deficiência? Os dados são o bastante para calar qualquer comentário que tente classifica-los como incapazes. Incapacidade é não acreditar em auto-superação e manter os olhos ‘cegos’, os ouvidos ‘surdos’, a mente ‘travada’ e as pernas do otimismo imóveis pelo preconceito.

A Campanha Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por meio da Campanha da Fraternidade 2006 – lançada no dia 2 de março – busca ao trabalhar o tema "Fraternidade e pessoas com deficiência" quebrar mais uma barreira, com um debate amplo junto às famílias brasileiras, células da sociedade.

O arcebispo da Arquidiocese de Aracaju, Dom José Palmeira Lessa, enfatizou que a campanha tenta levantar uma discussão centrada na dignidade humana. Ele também destacou que um dos motivos do preconceito social se deve ao clima de competição muito comum na sociedade. "Jesus deseja que as pessoas assumam o seu espaço na sociedade e assumam a sua condição humana", disse o religioso.

Dessa forma, tomando como base essa reflexão, espera-se que em médio prazo seja lançado um novo olhar a esta comunidade, não sendo mais vistos como vítimas indefesas. Afinal de contas o que mais desejam é o respeito a cidadania. O presidente da Associação dos Deficientes Motores de Sergipe, Antônio Fonseca, tem uma idéia semelhante e acredita que "o importante é mobilizar os Poderes Legislativos e Executivos para criar políticas sociais e acabar com o sentimento paternalista", que se tem com as pessoas com deficiência. A palavra de ordem é INCLUIR com responsabilidade.

* Anderson Barbosa é jornalista do Correio de Sergipe, do Inclusão Social (www.inclusaosocial.com) e do programa Câmara em Ação (TV Atalaia).

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