´O surdo é um estrangeiro dentro de seu próprio país´

´O surdo é um estrangeiro dentro de seu próprio país´


 


Geraldo Ferreira Sobrinho é engenheiro agrônomo, casado, pai de três filhos, diretor-presidente do Instituto Pedagógico de Apoio à Educação do Surdo de Sergipe (Ipaese) e assessor da Associação Internacional de Lions Club – Distrito LA3.  O Portal Inclusão Social foi conversar com Geraldo Sobrinho para saber dele sobre as dificuldades e vitórias alcançadas com o Ipaese, o trabalho desenvolvido na área de deficiências auditivas junto ao Lions Clube e sua experiência pessoal em lidar com a surdez de um filho.


 


INCLUSÃO SOCIAL – Como surgiu a idéia de fundar o Ipaese?


 


GERALDO SOBRINHO A idéia surgiu com um grupo de pais que nos convidou [seu Geraldo e a esposa, Fátima Ferreira] para participar de uma reunião para discutir a questão do aproveitamento dos alunos surdos nas escolas. Os pais que nos procuraram estavam insatisfeitos com o desempenho dos seus filhos, verificaram que não estavam tendo aproveitamento nenhum. Começamos a discutir alternativas para tentar amenizar o problema e a primeira idéia foi a de manter um contato com as escolas no sentido de que a gente organizasse grupos de alunos por turma pra ver se as escolas aceitavam (para facilitar o trabalho, fizemos um cadastro de alunos por série, idade). Atentamos para que as escolas criassem uma sala especial, mas não obtivemos êxito. A segunda tentativa foi criar um trabalho complementar as escolas e pensamos também no curso supletivo. Fizemos várias reuniões, incluindo nessas reuniões as professoras da educação especial do Estado e município, e evoluímos até a criação de uma escola especial para surdos. Em dezembro de 2000 formalizamos a instituição Ipaese. Uma mãe cedeu uma casa por um ano para ser a sede da instituição e, passado este período, começamos uma busca por uma nova sede, até que tomamos conhecimento de que a 2ª Igreja Batista dispunha de um lugar para ceder a alguma instituição. Fizemos um projeto que foi logo aceito e estamos lá desde então.


 


IS – Qual tem sido a maior dificuldade ao longo desses anos com o Ipaese?


 


GS O nosso maior problema, desde o dia que iniciamos o trabalho até hoje, tem sido o de professores. Um é encontrar professores com conhecimento de Língua dos Sinais, Libras, e outro é como pagar esses professores. Fizemos um cadastro de profissionais que tivessem conhecimento da Língua dos Sinais e a partir daí, negociamos e formamos o primeiro quadro de trabalho do Ipaese. Iniciamos com seis alunos e hoje estamos com 40 alunos. A grande dificuldade é que geralmente os convênios e parcerias não pagam pessoal. Nós sabemos que Estado e município não podem colocar professores à disposição de instituições, mas se o Estado ou município quisesse, poderia adotar essas salas de aula como sendo da própria rede; o que é permitido por lei. Isso sim, iria ajudar muito a comunidade surda!


 


IS – O Sr. teve contato com alguma pessoa surda antes do nascimento de Geraldinho? Quais as dificuldades em ser pai de uma pessoa sem audição?


 


GS Não, realmente foi um grande impacto… Na realidade os casais não se preparam para ter filhos, criá-los ou educá-los. O maior problema, preocupação e abalo que minha esposa e eu tivemos foi durante o primeiro ano. A partir daí nós tivemos uma grande oportunidade, que foi um seminário sobre deficiência que ocorreu aqui em Aracaju, no antigo Hotel Palace. Vieram vários profissionais que trabalhavam com deficientes, principalmente com surdos. Eu guardei uma grande mensagem desse seminário, que foi a seguinte: “O deficiente deve se tornar o mais independência possível; todo e qualquer passo conquistado é uma vitória”.  A partir daí, começamos a oferecer uma liberdade acompanhada ao Geraldinho. A segunda grande dificuldade foi entre os 3 e os 12 anos dele, pois esta foi a fase da luta pelo acesso à escola. A maioria não aceitava e as que aceitavam não tinham estrutura adequada, como professores de Libras. Além disso, as fonoaudiólogas não aceitavam a Língua dos Sinais; como a gente não tinha um conhecimento maior da causa na época, nos deixamos levar por aquelas fonoaudiólogas e assim a gente estava impedindo que eles se comunicassem. Eu já tinha decidido tirar Geraldinho da escola, porque ele andava muito revoltado, ia à escola e não conseguia se comunicar; eu ia pagar uma professora particular para pelo menos ele aprender a ler e escrever. Nesse período as reuniões se intensificaram e foi em uma delas que um pai disse que “o surdo é um estrangeiro dentro de seu próprio país”. A partir daí eu e outros pais começamos a entender a situação do surdo desta forma e assim, passamos a investir mais na comunicação, na Língua dos Sinais.


 


IS – Em sua opinião, qual deve ser o procedimento de uma família que tem um filho surdo e não tem conhecimento de Libras, nem tão pouco recursos financeiros para pagar estudos em um lugar apropriado?


 


GS – A primeira ajuda é a da família. O primeiro passo é tentar priorizar o curso da Língua dos Sinais à criança e para a própria família, pois este é o primeiro passo para que ela possa se comunicar. Depois, tem que buscar educação em uma escola que desenvolva um trabalho especial.


 


IS – O Geraldinho integra o projeto Inclusão Social há pouco mais de um mês. Qual a avaliação que o Sr. faz da colaboração do seu filho no projeto?


 


GS Primeiro eu parabenizo a vocês pela iniciativa desse trabalho, porque no que pese existir as leis, que já é um grande avanço, mas se não existir uma mobilização dos segmentos sociais no sentido em que essas leis passem a ser cumpridas, então fica difícil… E também vocês estão levando ao conhecimento da sociedade alguns esclarecimentos sobre os segmentos de portadores de deficiências. O trabalho desenvolvido pela equipe do Inclusão Social está tendo a oportunidade não só de esclarecer e informar, como até de envolver os segmentos dos portadores de deficiências – como é o caso do Geraldo Ferreira Filho, aluno do Ipaese e meu filho. A participação do meu filho neste projeto tem dois pontos positivos; o primeiro é que a comunidade surda passa a acompanhar as notícias da televisão [TV Atalaia]; o segundo é o próprio desenvolvimento de Geraldo Filho na Língua Portuguesa, já que ele tem de traduzir o Português para a Libras.


 


IS – O Sr. enquanto membro do Lions Club desenvolveu e desenvolve alguns trabalhos relacionados à deficiência. Como é esta experiência?


 


GS – O Lions trabalha com vários segmentos, como idosos, crianças e no ano passado fizemos um trabalho que nós chamamos de uma “Reunião Virtual”. A gente provocou, de uma forma bem primária (através de e-mails), uma discussão em nível de Sergipe, Alagoas e Pernambuco sobre a questão do surdo e foi até interessante que a maioria dos trabalhos que estavam sendo desenvolvidos, e todas as informações que nos chegavam, eram mais relacionadas à deficiência auditiva, ou seja, quem tem resíduo de audição; e a maioria das campanhas, programas e trabalhos voluntários eram voltados à aquisição de aparelhos. Como já disse, meu trabalho com deficientes começou de fato a partir de dezembro de 2000, quando um pai me disse que “o surdo é um estrangeiro dentro de seu próprio país”. Isto ocorreu durante uma reunião do Ipaese, mas levei essa preocupação para o Lions também.


 


Por Carlos Augusto


Da Redação (Aracaju/SE)


 

Publicado em Entrevistas