‘Estamos caminhando para um apocalipse motorizado. A alternativa é investir em bicicletas’

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É possível viver em um lugar onde as pessoas utilizem as bicicletas como meio de transporte para realizar suas atividades diárias. A afirmação é de Luciano Aranha, educador físico e atual presidente da Organização Não Governamental (ONG) Ciclo Urbano.

Fundada em 2007, a organização social sergipana tem como objetivo prioritário despertar entre os cidadãos a necessidade da utilização da bicicleta como meio de transporte. A entidade aposta em transportes sustentáveis, onde a locomoção através de meios não motorizados será mais viável para alcançar cidades mais humanas e favoráveis ao Meio Ambiente.

Em conversa com a equipe do Portal Inclusão Social, Luciano Aranha destacou o deficitário transporte público existente em Sergipe; mencionou a dificuldade em convencer os gestores públicos sobre investimentos em mobilidade urbana; e falou sobre as pedaladas realizadas pela instituição na Europa. Além disso, foi enfático ao destacar que um “apocalipse motorizado nas cidades brasileiras” está próximo.

*Por Roseane Moura

ciclo_urbanoPortal Inclusão Social – De que maneira a ONG Ciclo Urbano surgiu em sua vida?

Luciano Aranha – Eu sempre gostei de andar de bicicleta, então isso já facilitou meu envolvimento com a causa da organização. Desde 2004 tenho utilizado bicicleta quase diariamente, então quando fiquei sabendo que o Ciclo Urbano existia procurei conhecer as pessoas. Gostei do trabalho, do foco que a entidade tinha e então comecei a participar.


ciclo_urbano_7Portal Inclusão Social – Quais as principais bandeiras de luta levantadas pela ONG Ciclo Urbano?

Luciano Aranha – Nós procuramos lutar pela melhoria das condições do ciclista de uma forma geral e promover a bicicleta como meio de transporte. Também defendemos o uso de outros transportes não motorizados. Desejamos ainda um transporte público integrado à bicicleta, fiscalizando e propondo melhoras deste sistema. Nosso transporte público é bem deficitário, então incentivamos ainda a questão das ciclovias, ciclo faixas e tudo que esteja relacionado à bicicleta. Até skate faz parte do perfil do Ciclo Urbano, tanto é que temos associados que preferem esse meio de locomoção.


Portal Inclusão Social – Como a ONG Ciclo Urbano desenvolve suas ações?

Luciano Aranha – Temos uma equipe composta por voluntários. Hoje contamos com cerca de 30 associados e cinco voluntários que atuam diretamente desenvolvendo as atividades da instituição.  Então nós realizamos uma reunião mensal aberta para todos os associados e uma reunião quinzenal de um grupo menor para dar andamento aos nossos projetos.

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Foto: Victor Balde

Portal Inclusão Social – Que projetos vocês estão realizando junto à comunidade atualmente?

Luciano Aranha – Estamos com dois projetos em andamento: um deles é o Bike Blitz e o outro é para dar aulas de educação de trânsito nas escolas. O Bike Blitz é realizado mensalmente, sempre entre 16 e 19 horas, em locais de maior movimentação de ciclistas. Nós levamos informações aos ciclistas que circulam pela cidade em uma abordagem individual e dialogada. Utilizamos panfletos informativos, adesivos, plaquinhas ou a realização de manutenção básicas para as bicicletas, contribuindo na divulgação dos direitos dos ciclistas e esclarecendo sobre a forma como eles devem ocupar o espaço público.

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Pedal das Divas

Portal Inclusão Social – Existe mobilidade urbana em Aracaju?

Luciano Aranha – Existe, mas pode ser melhorada. É necessário integrar ciclovias, que teve no ano passado verba liberada pelo Governo Federal. Em Sergipe não foi feito projeto e por isso não andou. É um grande desafio fazer com que os gestores públicos compreendam que a mobilidade urbana passa pelo uso da bicicleta.

Portal Inclusão Social – Vocês têm buscado experiência fora do Brasil no quesito mobilidade urbana?

Luciano Aranha – O Ciclo Urbano já realizou pedaladas pela Europa em aproximadamente dois mil quilômetros. Estivemos na França, Espanha, Itália, Holanda, Bélgica, Alemanha e Áustria para observar como funciona o sistema compartilhado de bicicletas e como funcionam as ciclovias. Estamos sempre em contato com outras organizações nacionais e até de Portugal, onde trocamos informações e tentamos aplicar em Aracaju.

Portal Inclusão Social – Vocês conseguem patrocínio para as viagens?

Luciano Aranha – Não, a gente viaja por conta própria. Nós desmontamos a bicicleta, colocamos em uma caixa e chegamos até o nosso destino de avião.

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Portal Inclusão Social – Você acredita na possibilidade das pessoas passarem a ir trabalhar usando bicicleta mesmo fazendo calor?

Luciano Aranha – Acredito que isso seja cultural. É muito difícil você chegar e passar para uma população – que recebe da televisão todos os dias que o brasileiro é apaixonado por carro – que o brasileiro é apaixonado por bicicleta. Na Europa também existe esse mesmo problema do calor durante o verão. O sol fica tão forte quanto aqui e as pessoas pedalam normalmente. Com relação à violência, lá também existe, mas em nível menor. Mas porque lá as pessoas vão às ruas e brigam para que os gestores garantam uma Segurança Pública de qualidade. Aqui as pessoas ainda pensam de maneira específica, do que é conveniente para mim, para minha região, para o policiamento no meu bairro, quando na verdade a questão é muito maior.

Portal Inclusão Social – Você acredita que andar nas ciclovias é perigoso?

Luciano Aranha – Todo mundo fala que sim, mas recentemente fizemos uma contagem fotográfica dos ciclistas de Aracaju. Eu estava com mais uma pessoa e duas máquinas fotográficas realizando esse trabalho durante 13 horas e não fomos furtados nem roubados. Em minha opinião, existe a falta de policiamento de uma forma geral, mas também há uma sensação de pânico entre as pessoas que acaba tornando as coisas mais perigosas. Na Holanda, por exemplo, já andei de bicicleta meia noite, uma hora da manhã, e havia mulheres circulando nas bicicletas sozinhas de sapato alto e vestido. Lá existem viciados em drogas nas ruas e pessoas que furtam bicicletas para vender por 10, 20 euros. O perigo está em todo lugar.

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Portal Inclusão Social – Andar de bicicleta trará consequências positivas para Aracaju?

Luciano Aranha – Sim. Teremos uma cidade mais humana e com mais pessoas nas ruas. Isso gerará mais segurança. E também existe a preocupação em preservar o meio ambiente através dos meios não motorizados.  Quando você está em um carro, tem a falsa ilusão de que está seguro por que levanta os vidros. Mas na verdade não. Você apenas ainda não foi ‘sorteado’.

Portal Inclusão Social – Há diversos trabalhadores que circulam diariamente em Aracaju com bicicleta, mas têm o sonho de comprar uma motocicleta ou um carro. É mais difícil convencer a sociedade ou os gestores públicos de que a bicicleta é um meio de transporte viável?

Luciano Aranha – Os gestores públicos, porque se eles compreenderem ficará mais fácil criar mecanismos de passar essa ideia para a população de uma forma geral. Em um país com Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) zero para adquirir automóveis, com incentivo do próprio Governo Federal, como convencer o cidadão que é bom andar de ônibus, de bicicleta, de skate ou a pé? Existe projeto desde 2009 para reduzir o IPI a zero também na compra de bicicletas, mas continua tramitando. O motivo? Não há interesse nem demanda. O povo não cobra nesse sentido. A maior parte das pessoas não busca a melhora coletiva para o futuro. Até 2030, cerca de 90% da população mundial viverá nas cidades. Como ficará? Criando viadutos, pontes e alargando vias? Isso é iludir a população.

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Portal Inclusão Social – Que locais você indica andar de bicicleta em Aracaju?

Luciano Aranha – Indico todos os bairros, mas que evitem vias com grande fluxo de carros. Acho legal uma ida ao bairro Santo Antônio. Mas lembro que é importante utilizar um pisca atrás da bicicleta no período noturno e um na frente por conta de algumas ruas que são escuras. É importante também usar capacete, embora não seja obrigatório.

Portal Inclusão Social – A ONG Ciclo Urbano realiza algum tipo de trabalho no sentido de mostrar a forma correta de conduzir uma bicicleta?

Luciano Aranha – Realizamos duas oficinas nesse aspecto: Mão na Roda, onde ensinamos a pessoa a realizar pequenos reparos na bicicleta e indicamos a melhor altura do banco para ela conduzir o meio de transporte; e temos também o Bike Anjo, onde ensinamos as pessoas como se comportarem no trânsito. Quem não sabe andar de bicicleta também ensinamos na Bike Anjo. Na última oficina que fizemos deste tipo havia sete pessoas que não sabiam andar de bicicleta. Destas, seis saíram pedalando. Foi uma média boa. Em 2012 realizamos três Bike Anjo e duas Mão na Roda. As que estamos realizando este ano pode ser acompanhadas no site ou facebook da ONG: www.ciclourbano.org.br  e www.facebook.com/ongciclourbano.

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Portal Inclusão Social – A ONG Ciclo Urbano já tem uma sede própria?

Luciano Aranha – Ainda não. Geralmente marcamos nossas atividades na Sociedade Semear. Temos um projeto que estamos correndo atrás para ser financiado.  Com isso, certamente teremos nossa sede e uma Secretaria Executiva, já pensando no quesito profissionalização da entidade.

Portal Inclusão Social – Todos os meses ocorre uma bicicletada em Aracaju. Esse momento é proposto pela ONG Ciclo Urbano?

Luciano Aranha – Não. A ONG Ciclo Urbano surgiu com pessoas que participavam da bicicletada. A bicicletada surgiu primeiro. Depois é que um grupo se reuniu e percebeu que havia a necessidade de se fundar uma instituição para cuidar das demandas dos ciclistas. A bicicletada ocorre sempre na última sexta-feira de cada mês, sendo realizada simultaneamentente em diversas partes do mundo. Em Aracaju, o trajeto é escolhido na hora pelos participantes. Mas o ponto de partida é sempre a Treze de Julho, às 19h30. A saída ocorre às 20 horas e um minuto. O percurso varia de 5 a 10 quilômetros, geralmente fechando duas horas de pedalada. Todo mundo espera todo mundo, mesmo os que cansam no meio do caminho. Todos concluem o trajeto tranquilamente. Após a pedalada, o grupo confraterniza. A adesão varia. Já houve bicicletada com três pessoas, entretanto já houve com 100 participantes.

Portal Inclusão Social – Que tipo de bicicleta você indica para os iniciantes?

Luciano Aranha – Todas as bicicletas são boas, mas indico as que estiverem na faixa de preço em quinhentos e mil reais. Essas geralmente trazem os itens que as pessoas buscam. Prefira aquela que se enquadrar no seu orçamento. Em Aracaju as ciclovias não são interligadas, por isso muita gente não pensou ainda em adquirir uma bicicleta. Quando forem interligadas certamente haverá mais bicicletas nas ruas e pontos onde as pessoas poderão inclusive alugar esse meio alternativo de transporte.

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Portal Inclusão Social – Existem estatísticas em Sergipe que apontem os números de acidentes com ciclistas?

Luciano Aranha – De 2006 a 2012 morreram 56 ciclistas, sendo todos em Aracaju. É válido ressaltar que o número de pessoas mortas utilizando bicicleta é bem menor do que o número de pedestres mortos. Em 2012 foram oito ciclistas mortos em acidentes. Este ano já morreram, mas não contabilizamos ainda. Geralmente os acidentes ocorrem envolvendo a bicicleta e um carro ou ônibus e as pessoas não prestam socorro. Os cidadãos não percebem que quem detém a força é o pedestre e não os veículos. Se eu sou pedestre e olho fixamente para você, que vem dirigindo um carro, você entende que quero e vou passar naquele momento. Os pedestres são mais fortes nesse sentido. Não se atravessa uma via demonstrando medo, insegurança ou distração. Tanto o ciclista como o pedestre precisam demonstrar o que querem antes de atravessar uma rua.

* Esta entrevista contou com a participação do radialista Renato Nogueira e da jornalista Waneska Cipriano

Fotos: Waneska Cipriano e arquivo pessoal de Luciano Aranha

 

Publicado em Entrevistas

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