Inclusão de Deficientes Mentais no Sistema Regular de Ensino Fundamental é tema de monografia

Inclusão de Deficientes Mentais no Sistema Regular de Ensino Fundamental é tema de monografia



Com o tema “A Inclusão dos Deficientes Mentais no Sistema Regular de Ensino Fundamental”, as formandas em Serviço Social pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Danielle Ferreira Fontes, Candice Moraes Lisboa e Michelle de Holanda Cavalcante concluíram monografia voltada para este tema. Danielle conversou com o Portal Inclusão Social destacando um cenário educacional pouco conhecido pelos sergipanos: as escolas não possuem condições de receber portadores de deficiências mentais.


 


INCLUSÃO SOCIAL – Como decidiram fazer uma monografia com este tema?


 


DANIELLE FONTES – A nossa primeira orientação para discutirmos o tema que seria trabalhado foi no dia 18 de janeiro desse ano, quando demos início também ao nosso projeto de pesquisa. No dia da matrícula do Trabalho de Conclusão do Curso tivemos três áreas como opções do tema: trabalho informal, idoso e saúde mental. Saúde Mental foi o tema escolhido pelo departamento de Serviço Social para realizarmos a nossa pesquisa, no entanto durante as discussões com a nossa orientadora resolvemos adaptá-lo a uma questão atual: a inclusão. E nesse mesmo período, eu e minha colega Michelle de Holanda Cavalcante estagiávamos no Centro de Referência em Educação Especial de Sergipe (Creese), o qual tem como uma das suas atribuições o encaminhamento das crianças e adolescentes com necessidades especiais às escolas da rede estadual de ensino. Então resolvemos unir o estágio e a monografia delimitando apenas o tipo de deficiência que iríamos pesquisar. E o tema ficou ‘A Inclusão dos Deficientes Mentais no Sistema Regular de Ensino Fundamental’, com o campo de pesquisa nas escolas da rede estadual de ensino fundamental.


 


IS – Quais as principais dificuldades encontradas para a elaboração da monografia?


 


DF – Realmente tivemos algumas dificuldades, como o acesso a alguns funcionários e professores nas escolas pesquisadas, devido à dinâmica deles. Na utilização de alguns instrumentos durante a pesquisa também, porque tivemos que direcionar alguns deles, como a entrevista individual e coletiva. Houve algumas limitações na pesquisa. Não pudemos realizar outro instrumento, a observação participante, já que não presenciamos a realidade de todas as escolas analisadas.


 


IS – O que mais chamou a atenção do grupo nas escolas? Acreditam que as escolas sergipanas estão preparadas para educar os portadores de deficiências mentais?


 


DF – O que mais nos impressionou foi justamente perceber que as escolas não estão preparadas para receber os deficientes mentais, principalmente os funcionários e os professores. Apenas em duas escolas tivemos dificuldades de acesso. Nas demais fomos bem recebidas por diretores e professores, que se mostraram inclusive interessados no nosso trabalho, como forma de pesquisa. Agora, é importante destacar que apenas uma, de um universo de seis escolas que incluem o deficiente mental em Aracaju, nos afirmou que recebe equipamentos do Ministério da Educação, como computadores. As demais não possuem estrutura nem equipamentos para oferecer uma educação de qualidade aos alunos.


 


IS – Essa realidade é apenas das escolas públicas de Aracaju ou o fato se repete em todo o Estado?


 


DF – Acredito que a realidade das escolas do interior do Estado seja a mesma, primeiramente devido à falta de compromisso dos gestores públicos. Apesar de tantas campanhas que aparentam apontar resultados na prática, é difícil o atendimento aos alunos, como encaminhamentos às instituições que atendem aos portadores de necessidades especiais. Isso proporcionaria o acolhimento do aluno tanto a nível escolar quanto médico, psicológico e social. Essas informações podem ser afirmadas a partir da nossa pesquisa no estágio obrigatório, na qual verificamos que 13,6% das crianças que são atendidas no Creese vêm de outros municípios sergipanos para serem atendidas por instituições, associações e também para serem encaminhadas às escolas regulares.


 


IS – Quais as maiores dificuldades apontadas pelos professores no momento de lidar com os portadores de deficiência?


 


DF – A maior parte dos professores afirma que sente muitas dificuldades de trabalhar não apenas com o deficiente mental, mas com todos os tipos de deficiência, inclusive com a recepção dos alunos “normais” em relação aos alunos deficientes. A dificuldade mais apontada por esses professores que ensinam turmas heterogêneas, ou seja, com turmas onde há alunos deficientes, é a falta de capacitação deles para lidar com esse tipo de alunado, o qual requer, segundo eles, mais trabalho. Em apenas três das seis escolas pesquisadas, os professores nos relataram ter participado de algum curso de capacitação promovido pela Secretaria de Educação do Estado. No entanto, nos disseram que esses cursos não são realizados por todos os professores da escola indicada, e que não são contínuos, ou seja, começam e não terminam. Com essa falta de preparação dos professores, muitos nos afirmaram que se sentem angustiados e com medo na hora de lidar com os deficientes, principalmente no que se refere às questões da sexualidade aguçada e da lentidão na aprendizagem dos deficientes mentais, características específicas da deficiência. Outra dificuldade levantada pelos professores é a falta de material didático e pedagógico, o que prejudica a aprendizagem do aluno com deficiência, já que o ele necessita de um livro adaptado a sua dificuldade.


 


IS – Você acredita que há uma inclusão dos deficientes no processo de aprendizagem em Sergipe?


 


DF – Acredito que a inclusão não se dá na prática. No caso das escolas, muitas estão despreparadas estruturalmente para atender os portadores de necessidades especiais. Numa visão geral, posso dizer que as escolas não possuem recursos didáticos e pedagógicos para trabalhar com os deficientes mentais; não possuem intérpretes para auxiliar os professores nas turmas com deficientes auditivos. Não há rampas, banheiros, corrimãos adequados para os deficientes físicos; e não possuem livros e materiais didáticos em Braille para os deficientes visuais. Creio que nem os professores e nem nossa sociedade estão preparados para lidar com os deficientes. Apesar de não haver mais torturas, castigos e assassinatos aos recém-nascidos com deficiência, como já existiu em outros momentos da história, podemos perceber muita discriminação das pessoas, seja num olhar, numa palavra, na hora de um contrato de trabalho, no esporte ou na escola.


 


IS – Então não temos o que comemorar nessa área?


 


DF – Apesar de tudo o que já disse, acredito sim que muitas coisas estão melhorando, que a legislação aos poucos está sendo cumprida, que as pessoas estão se conscientizando que é preciso mudar; e que o portador de necessidades especiais é um sujeito de direitos, como todos nós somos, que merece oportunidades para mostrar que é capaz. Acredito na inclusão, mas em longo prazo, pois o que presenciamos atualmente parece uma mistura de integração e alguns pontos de inclusão.


 


IS – Acredita que algo tenha mudado em sua vida depois da experiência de ter realizado a monografia nesse sentido?


 


DF – Sim, mudou minha forma de pensar, de agir. Passei a criticar menos e a olhar de outra maneira um portador de necessidades especiais. Não que fosse totalmente preconceituosa, mas a gente acaba sempre olhando para um deficiente com pena, por exemplo. É verdade que ainda me sensibilizo muito quando encontro alguma pessoa com necessidades especiais, mas aí procuro vê-la como um cidadão que de uma forma ou de outra luta pelos seus direitos, o direito á vida, a acessibilidade, a se comunicar etc. Esse trabalho foi realizado em dois momentos muito importantes pra mim. O primeiro foi a conclusão do curso de Serviço Social, um sonho realizado com a concretização dessa monografia. E segundo, o crescimento pessoal que esse estudo me proporcionou, tanto em âmbito psicológico como no profissional.


 


IS – Onde as pessoas podem encontrar esse trabalho de vocês?


 


DF – O curso de Serviço Social, diante do atual currículo, não nos determina a apresentação da monografia. Mas as pessoas que tiverem interesse em se aprofundar neste tema devem procurar a monografia “A Inclusão dos Deficientes Mentais no Sistema Regular de Ensino Fundamental” no departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Sergipe. Gostaria apenas de ressaltar que começamos o trabalho 18 de janeiro deste tema e concluímos em 20 de setembro; e que nunca pensamos em desistir do tema. Ao contrário: insistimos e muito para que o nosso tema fosse esse.


 


Por Roseane Moura


Da Redação (Aracaju/SE)

Publicado em Entrevistas