Parte de uma mesma tribo: Kariri-Xocós divulgam cultura indígena

 Fotos: Waneska Cipriano

Parte de uma mesma tribo: Kariri-Xocós divulgam cultura indígena

Abril, mês de comemoração do índio, ou melhor dizendo, da cultura indígena. Todos os anos, índios da tribo Kariri-Xocó divulgam essa cultura em Sergipe. Este ano, vieram 13 integrantes da tribo que ficarão até o domingo, dia 3, e já se apresentaram em mais de 40 escolas.

Tawrã, filho do cacique Taruanã, recebeu a equipe do Inclusão Social na casa onde estão hospedados, em São Cristóvão. Ele nos disse que o grupo se apresenta em escolas "arrecadando alimentos e dinheiro para a aldeia, porque passam por muitas dificuldades".

 

Tawrã, filho do cacique Taruanã

O Toré e os Kariri-Xocós

A aldeia onde os Kariri-Xocó vivem, fica em Porto Real do Colégio, no Estado de Alagoas, bem à beira do Rio São Francisco. A tribo é uma mistura de duas etnias: os Kariris, que já eram de Porto Real do Colégio, e uma parte dos Xocós, que saíram de Propriá após suas terras serem afogadas e invadidas na época do Império. "Eles foram buscar refúgio lá e nós os acolhemos muito bem", disse Tawrã mostrando o espírito de paz da tribo.

E em se tratando de paz, os Kariri-Xocós são um povo pacífico. O forte deles não é a guerra. É a dança. O Toré, como são chamados os cantos e danças rituais, representa a vida indígena em harmonia com a natureza. É o movimento da Terra, o som dos instrumentos sincronizados com a batida do pé no chão no mesmo ritmo da batida do coração. O To (som) ré (sagrado) é forte e vibrante. Não há quem não se encante ao ouvir os sons que, ao sair da boca dos índios, parecem brotar da própria Mãe Terra.

 Resistência

A divulgação das manifestações culturais da tribo é uma forma de resistência das tradições indígenas. Divulgando, eles mostram aos homens brancos parte da cultura ancestral do Brasil e diminuem o preconceito de parte da sociedade que ainda os vê como um povo selvagem.

O maior desafio deles é manter viva toda a herança cultural de seus ancestrais e evitar o desaparecimento das tradições culturais que são transmitidas oralmente geração à geração.

 Mas a resistência não é apenas em divulgar a arte e modo de ser indígena. É também na saúde e no crescimento demográfico. Em 2008, havia na aldeia cerca de 2.500 índios e atualmente já são 3 mil.

O filho do cacique contou que a vida dos Kariri-Xocós é longa e que "o índio mais antigo da aldeia tem 106 anos". Quanto às crianças, Tawrã diz ter perdido a conta… "Sempre nasce mais. As meninas casam com 12 ou 13 anos e aos 15 já são mães", explica.

Para cuidar da saúde, existe o pajé, o "curandeiro da tribo". Uma espécie de médico que trata os seus doentes apenas com ervas. "Assim como o homem branco, o índio fica doente, mas como conhecemos muitas ervas, o pajé cuida de nós e ficamos bons rapidinho", diz Tawrã sorrindo.

 Arte

E como nem só de dança vive o índio, as mulheres da tribo são conhecidas por serem exímias ceramistas. Antigamente, como não existia maneira de armazenar os alimentos, a cerâmica era muito usada nas aldeias para quase todas as atividades domésticas. Segundo dados do Museu de Arqueologia de Xingó (MAX), têm-se notícia da cerâmica Xocó desde 2.500 anos atrás, com exposição de algumas peças.

Entretanto, com o chamado "progresso", a produção diminuiu. A produção cerâmica tem maior significado na renda da aldeia apenas no período de entressafra, já que grande parte da renda vem do trabalho rural.

Além da cerâmica, as mulheres também produzem bijuterias, que vendem no comércio local e durante as apresentações que fazem em todo o Brasil. E como música e dança também são artes, os Kariri-Xocós já gravaram CD e DVD com seus cantos e danças.

 O segredo da Jurema

O ritual de maior significado para os Kariri-Xocós é o Ouricuri. Parece ser ele que mantém a identidade da tribo. Quando indagado sobre o ritual, Tawrã e os conselheiros da tribo se esquivaram dizendo apenas ser "segredo".

O local onde esse sagrado ritual se realiza é homônimo ao ritual e fica um pouco distante da aldeia. O Ouricuri dura 15 dias e é realizado entre os meses de janeiro e fevereiro. No local existe uma oca para que os participantes fiquem durante o tempo que passam realizando o ritual.

 No Ouricuri, os Kariri-Xocós ingerem um vinho retirado de uma planta conhecida por Jurema. As cascas da Jurema são cozinhadas por três dias e, após ingerirem esse vinho, eles entram numa espécie de transe e é onde dizem que entram em contato com seus ancestrais.

Tawrã disse que é "o segredo" que dá força e mantém os Kariri-Xocós unidos. Evidente que a união é que torna os índios mais fortes.

Alguns Órgãos ajudam aos índios, como a Fundação Nacional de Apoio ao Índio (FUNAI), mas não resolvem o problema de inserção dos nossos primeiros habitantes em uma sociedade branca. Hoje não há tanto preconceito, mas ainda vemos a cultura indígena como algo curioso.

As apresentações de índios como os Kariri-Xocós têm participação fundamental não só para divulgar sua cultua e tradição, mas para que os percebamos como parte de uma mesma tribo. Que não o vejamos como "o outro", mas como parte de nós.

Para conhecer mais sobre os Kariri-Xocós, basta acessar o site www.karirixoco.com.br ou entrar em contato com o cacique Taruanã, em Porto Real do Colégio, por meio do telefone (82) 3553-1283. Aqui em Sergipe o contato é a Elaine: (79) 8829-1267.

Clique aqui para conferir a galeria de fotos da visita feita pela equipe Inclusão Social aos Kariri-Xocós

Por Elaine Mesoli
Estudante de jornalismo pela UFS
e voluntária na ONG ISocial

 

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