Um homem torturado: Frei Tito e seu exemplo ainda vivo de luta por justiça social


 

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O ano de 2014, marcado pelos 50 anos do golpe que instaurou uma ditadura civil-militar no Brasil e em que os trabalhos da Comissão Nacional da Verdade começam a jogar luz sobre os chamados “anos de chumbo”, nada mais oportuno do que o lançamento do livro “Um homem torturado – nos passos de Frei Tito de Alencar”, escrito pelas jornalistas Leneide Duarte-Plon e Clarisse Meireles. A vida do frade dominicano nascido no Ceará – que atuou no combate à ditadura, foi preso, torturado e libertado na troca pelo embaixador suíço sequestrado por revolucionários – é considerada pelas autoras como um exemplo de coerência. Destruído nas salas de tortura, exilado na França desde 1971, ele se suicidou aos 28 anos, em 1974. PA história de Frei Tito segue inspirando todos os que lutam por uma sociedade mais justa e generosa. O livro está sendo em Fortaleza, cidade onde nasceu Tito, nesta terça-feira, 09 de dezembro, às 15h, na Assembleia Legislativa do Estado do Ceará.

Com base em ampla pesquisa e após realizarem mais de 30 entrevistas no Brasil e na França, Leneide e Clarisse reconstituem a vida de um dos mais emblemáticos personagens da luta contra a ditadura militar. O livro é uma reportagem biográfica que aborda, sobretudo, a militância política de Tito, passando pela prisão, a tortura que o destroçou psicologicamente, o exílio, até seu suicídio, em 10 de agosto de 1974, na França. Para tanto, as autoras ouviram pessoas que estiveram presas com ele em São Paulo e religiosos que conviveram com ele no Convento Sainte-Marie de La Tourette, em Lyon. Pela primeira vez, o psiquiatra e psicanalista Jean-Claude Rolland, que tratou de Tito de Alencar Lima na França, é entrevistado para falar do frade brasileiro. Para conhecer a gênese da fé e da consciência política de Tito, Leneide e Clarisse também conversaram com Nildes, a irmã que o criou. Outro depoimento importante é o de Xavier Plassat, frade muito próximo a Tito em seu último ano de vida.

Confira a entrevista com as duas autoras da obra, realizada pela Civilização Brasileira, editora da publicação.

A história de Frei Tito é também a história da ditadura militar no Brasil e da luta pela democracia. A ideia inicial surgiu, então, por causa dos 50 anos do golpe militar?

Leneide Duarte-Plon – Antes de tudo, é preciso lembrar que a ditadura foi civil-militar, pois vários setores civis se engajaram na preparação do golpe. Muitos industriais e institutos – como o Ipes [Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais] e o Ibad [Instituto Brasileiro de Ação Democrática] – ajudaram a preparar o golpe efetivado pelas forças militares. A imprensa atuou com uma cobertura alarmista e partidária, criticando o governo João Goulart e escondendo os avanços e o apoio popular ao governo. A ideia do livro nasceu de uma sugestão de um editor que, em 2011, soube que eu ia entrevistar o psiquiatra que tratou de Tito na França. Ele me convenceu de que havia um livro a ser feito. O fato de sair no ano dos 50 anos do golpe e dos 40 anos da morte de Tito é uma feliz coincidência.


Entre tantos personagens que lutaram pela justiça social durante o regime militar instaurado em 1964, por que escolher Frei Tito? O que encantou vocês na trajetória dele?

LDP – Tito é um revolucionário e, ao mesmo tempo, profundamente habitado pelo Evangelho de Jesus Cristo. E, como ele, vejo o Evangelho como uma mensagem de libertação e de Justiça. Tito e os frades dominicanos das Perdizes [bairro de São Paulo, onde fica o convento dos dominicanos], assim como outros em toda a América Latina nos anos 1960 e 1970, tentavam conciliar Marx e Cristo. São dois discursos radicais de transformação e justiça social. A Teologia da Libertação nasceu como uma resposta aos anseios de Justiça, mostrando que Jesus Cristo se interessava pelo homem encarnado, por sua vida na terra e não apenas por almas. Tito escreveu : “O cristianismo não pode se calar diante das injustiças, pois calar é trair. Seu dever é tornar-se sal da terra, luz do mundo. […] Hoje, um terço da Igreja do Brasil se compromete: nós renunciamos a uma revolução cristã e estamos decididos a participarmos da luta do povo por seus direitos fundamentais. Para essa luta estão convidados todos os que desejam um mundo mais justo e mais humano”. A esquerda comunista – que acusava a religião de “ópio do povo”, segundo a fórmula de Marx – viu que tinha na Igreja progressista um aliado para as profundas transformações sociais de que o Brasil necessitava.

frei 2Frei Tito foi apenas mais uma vítima da ditadura? Qual a importância dele na luta contra o regime militar?

LDP – Ele atuou com um grupo de frades dominicanos que davam apoio à Aliança Libertadora Nacional, grupo revolucionário criado por Carlos Marighella ao deixar o Partido Comunista Brasileiro, pelo qual tinha sido eleito deputado na década de 1940. Alguns frades do Convento das Perdizes, em São Paulo, ajudavam a esconder pessoas perseguidas pelos órgãos de repressão. Frei Betto, no [Estado do] Rio Grande do Sul, fazia parte de um esquema para ajudar revolucionários a deixarem o Brasil pela fronteira. Como presidente do diretório acadêmico do Instituto de Filosofia e Teologia (IFT), Tito participou do 30° Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), que foi invadido pela polícia. Todos os mais de 700 estudantes que se encontravam no sítio, em Ibiúna [cidade do interior de São Paulo], naquele dia 12 de outubro de 1968, foram presos, inclusive Tito. Ele foi mais brutalmente torturado porque intermediara a cessão do sítio para aquele congresso. Mas ele não era o frade mais próximo da ALN. Inclusive, lamentou, numa entrevista em Paris, nunca ter encontrado Marighella, ao contrário de outros de seus confrades.

Leneide, não é a primeira vez que você mergulha nesse triste período da história do Brasil. Além do interesse histórico, há outras motivações de sua parte? Pessoais, talvez?

LDP – Tenho interesse histórico e vejo como uma imposição ética denunciar a tortura de ontem e de hoje. Penso que todos temos um papel na transformação do Brasil em um país mais justo, com menos desigualdades. Devemos fazer o que estiver ao nosso alcance para diminuir o fosso que separa ricos e pobres no Brasil. Depois que vim morar na França, em 2011, passei a acompanhar mais de perto o trabalho de diversas associações de direitos humanos, entre elas a ACAT – Action des chrétiens pour l’abolition de la torture. A tortura está banida dos textos das democracias, inclusive no Brasil, mas existe na prática. Precisamos combater esse crime contra a humanidade. É preciso que se denuncie a tortura onde existir, seja em Guanánamo [base militar e prisão estadunidense em Cuba], seja nas delegacias e prisões brasileiras. Frei Xavier Plassat escreveu, na apresentação que fez para o livro : “Sem a elucidação constante da verdade, particularmente em relação às sombras mais trágicas da nossa história, tornam-se incompreensíveis e insuperáveis as recorrentes e brutais manifestações de violência, de barbárie, que continuam pontuando nosso tempo, nos presídios, nas delegacias, nos morros, nas fazendas: a matança de jovens, de posseiros, de negros, de índios, de migrantes, de travestis, de prostitutas; a comercialização de gente e sua escravização; a confiscação da esperança; a negação do bem-viver”. Pessoas como Plassat, como Tito e como os outros frades que participaram da luta pela democracia nos fazem continuar acreditando na humanidade.


Por que vocês decidiram trabalhar juntas nesse projeto e como se deu a divisão de tarefas?

Clarisse Meireles – Recebi o convite de Leneide em junho de 2012 e aceitei imediatamente. Estava saindo de um trabalho para uma ONG ambiental em Manaus [Estado do Amazonas], e logo me entusiasmei pelo projeto, que me permitiria pesquisar a vida de Tito e entrevistar seus contemporâneos sobre sua vida e militância, em um período da História do Brasil que não vivi, e sobre o qual aprendi muito pouco na escola. Também me interessou, enormemente, o fato da trajetória de Frei Tito jogar luz sobre o trabalho fundamental de setores progressistas da Igreja Católica na resistência à ditadura civil-militar brasileira. Como Tito afirmou numa entrevista em 1972, “o Evangelho traz uma crítica radical da sociedade capitalista. Nesse sentido, é revolucionário. Os temas da esperança, da pobreza, do messianismo, que são profundamente bíblicos, estão na fonte do movimento revolucionário. Não vejo, realmente, como ser cristão sem ser revolucionário”. O livro também me entusiasmou por ser uma oportunidade de trabalhar com Leneide, uma jornalista cujos trabalho e militância admiro muito, e que, além de tudo, é minha mãe. Imediatamente, passei a ler a literatura sobre o período, a começar por “Batismo de sangue”, de Frei Betto. Estando eu no Brasil, ela em Paris, dividimos as entrevistas, algumas feitas no Rio [de Janeiro], outras em Paris. Nos encontramos em Paris e Lyon para mais uma série de entrevistas, sobretudo com os frades que conviveram com Tito no país, onde ele se exilou depois de banido. Depois, Leneide esteve no Rio fazendo entrevistas sozinha, e eu continuei algum tempo em Paris, fazendo outras. A escrita foi feita separadamente, Leneide tendo redigido um maior número de capítulos. Tentei trazer pontos de vista, dúvidas e questionamentos de quem não viveu aquele período histórico, sobre o qual tinha enorme interesse e muitas lacunas de conhecimento.


Como foi feita a escolha dos entrevistados, e quanto tempo durou a fase de entrevistas?

CM – Para contar a vida de Tito e seu tempo, entrevistamos mais de 30 pessoas que conviveram com Tito desde sua infância e adolescência – como sua irmã Nildes e o ex-deputado federal José Genoino, que conviveu com Tito em Fortaleza, na militância da Juventude Estudantil Católica (JEC) – até o fim da sua vida, nos anos na França, onde estivemos com seu psiquiatra, Jean-Claude Rolland, e a maioria dos frades franceses e brasileiros com quem conviveu no exílio. De sua juventude, entrevistamos seus confrades dominicanos do Convento das Perdizes, a maioria do núcleo de apoio à Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, como Frei Betto. E tivemos ainda a oportunidade de falar com muitos dos companheiros de Tito no voo dos 70 presos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bücher, sequestrado em 1970. Muitas portas e arquivos nos foram abertos, com destaque para o precioso arquivo de Magno Vilela, ex-dominicano que também viveu exilado em Paris e, hoje, é historiador em São Paulo. As entrevistas se estenderam por um ano e meio. O livro nos tomou dois anos e meio de trabalho de entrevistas e escrita.

Frei Tito lutava pela justiça social. Seu ideal de juventude era realizar “um trabalho pastoral em que levasse a palavra revolucionária de Cristo aos pobres e desvalidos”. Ou seja, para ele, a religião não tinha nada de resignação. Acreditar em Deus não significava que os menos favorecidos deveriam aceitar, sem questionamento ou indignação, o que a vida lhes impunha. Há ainda esse tipo de posicionamento dentro da Igreja Católica?

CM – Sim, ainda que seja menos visível do que o das alas mais conservadoras da Igreja. O engajamento de Tito e de seus companheiros era fruto direto de uma compreensão do papel da Igreja trazida pelo Concílio Vaticano II, que se abria a um maior ecumenismo e procurava ampliar os espaços da fé católica no cotidiano, aproximando-se do povo. Apesar da posterior perseguição do Vaticano à Teologia da Libertação, durante o papado de João Paulo II, muitos religiosos ainda acreditam, vivem e pregam uma fé transformadora, como se pode atestar pelo trabalho das Comunidades Eclesiais de Base e da Comissão Pastoral da Terra, para dar alguns exemplos. O amigo mais próximo de Tito, no seu último ano de vida, o frade dominicano francês Xavier Plassat, por exemplo, desde 1989, desenvolve seu trabalho pastoral no interior de [Estado de] Tocantins e, atualmente, é o coordenador da campanha da Pastoral da Terra contra o trabalho escravo.

frei 4O psicanalista francês Jean-Claude Rolland, que tratou de Frei Tito em seu último ano de vida, descreve os dominicanos como “pessoas peculiares, muito religiosos, muito livres e muito rebeldes”. Qual a importância da Ordem dos Dominicanos na vida de Frei Tito? Ele teria seguido outros caminhos se sua escolha religiosa fosse outra?

LDP – Tito já era politizado desde o berço. Foi por meio da família que descobriu a política; tinha dois irmãos bastante ativos politicamente, um deles, filiado ao Partido Comunista. Sua irmã Nildes o levou à JEC, Juventude Estudantil Católica, um dos braços da Ação Católica, movimento de esquerda. Foi por influência de Frei Betto, que conheceu na JEC, que Tito decidiu entrar para o seminário e tornar-se dominicano. Não se pode saber se ele teria seguido outros caminhos se não tivesse se tornado dominicano ou se tivesse optado por outra Ordem da Igreja Católica. Em todas elas, há religiosos engajados. Leonardo Boff, um dos teólogos da Teologia da Libertação, pertencia à Ordem Franciscana.

Há ainda quem possa se surpreender com a participação de religiosos na luta contra o regime ao lado de marxistas ateus. Qual a participação dos dominicanos na luta contra a ditadura militar?

LDP – Os dominicanos não tiveram uma posição unificada contra a ditadura. Alguns, como dom Lucas Moreira Neves, compactuaram com o regime. No mínimo, se calaram, se omitiram. E houve alguns que se envolveram na denúncia das torturas e na proteção aos perseguidos pela ditadura. Foi o caso de Frei Tito, Frei Betto, Frei Fernando de Brito, Frei Oswaldo, Frei Giorgio Callegari, Frei Ivo Lesbaupin, Frei Magno Vilela, Frei Maurício (João Caldas Valença) e Frei Ratton Mascarenhas. Os quatro últimos, depois, deixaram a Ordem Dominicana.

E como os dominicanos eram vistos pelos marxistas?

LDP – Alguns marxistas tinham uma hostilidade generalizada em relação à religião e aos religiosos. Mas Marighella, entre outros, pensava que comunistas e católicos progressistas podiam trabalhar juntos na luta pela democracia.

Dr. Rolland escreveu que não se pode nem se deve explicar o suicídio de Frei Tito, “mas deve-se reconhecer o quanto esse gesto simbolizou sua história, como ele é simbólico da história da tortura que conduziu sempre, inexoravelmente, depois, a vítima a retomar o ato do torturador e finalizar sua obra”. Para o psicanalista, “suicidando-se, Tito obedeceu a Fleury pela última vez”. Na interpretação do médico, o Frei, em seu delírio, “só reproduziu, psiquicamente, o que tinha sofrido de fato”. O suicídio de Frei Tito não foi o único cometido por vítimas de torturas durante a ditadura, mas ele pode ser considerado emblemático?

LDP – Ele é excepcional porque se tratava de um frade da Igreja católica. Ora, a Igreja sempre condenou o suicídio, pois considera a vida um dom de Deus e que só ele pode tirá-la. O cardeal de Paris, Jean-Marie Lustiger, se opôs à realização da missa de corpo presente na catedral Notre-Dame, de Paris, cidade que reunia, na época, o maior número de exilados brasileiros. Então, ela foi realizada em Lyon. Tito se tornou um símbolo de todos os torturados que se suicidaram e também dos que seguiram vivendo mergulhados nas trevas das salas de tortura ou com sequelas físicas e/ou mentais. Penso que devemos contar a história dele também por todos os Titos que sofreram e sofrem ainda a tortura no Brasil e no mundo. E a história da ditadura deve ser contada para que a defesa da democracia seja preocupação de todos os brasileiros.


frei 3Os sonhos por justiça social no Brasil que moviam Frei Tito ainda são sonhos? Como vocês veem a luta por justiça social no país hoje? Não vivemos mais numa ditadura militar, mas há ainda injustiças, abuso de poder, tortura. Basta atentarmos para notícias recentes do Rio de Janeiro como as das mortes do Amarildo Dias de Souza [pedreiro preso e morto por policiais no Rio em 2014 sem motivo] e da Cláudia Ferreira da Silva [auxiliar de serviços gerais presa e arrastada por uma viatura policial no Rio, também sem motivo, em 2014], e da prisão injustificada do ator Vinícius Romão. [os três eram negros e pobres]

CM – Penso que nem Tito nem os dominicanos nem os revolucionários ou militantes de esquerda tinham sonhos. Eles tinham, ou têm ainda, ideais de justiça social, e por eles lutavam. A luta por justiça social está bastante viva, hoje, graças à militância incansável de movimentos sociais que se articulam e têm obtido importantes conquistas desde o fim da ditadura, apesar da obsessão da mídia com a corrupção, que vampiriza o noticiário e despolitiza o debate público no Brasil. O MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], por exemplo, é considerado pela esquerda do mundo inteiro um dos movimentos sociais mais importantes do mundo – e, para o intelectual americano Noam Chomsky, é, simplesmente, o mais importante. Há pouco mais de um mês, o MST completou 30 anos e vem se renovando ao aliar a luta pela terra para os camponeses com a luta contra o modelo agrícola concentrador de terra, de monoculturas para exportação, dependentes de fertilizantes e agrotóxicos – que se pode dizer que é quase o mesmo modelo adotado no Brasil há 500 anos. A tristeza é ver esse modelo repetido pelos governos de um partido nascido comprometido com a transformação social, que trouxe importantes avanços sociais, mas demonstra pouca vontade política de enfrentar grupos de interesse representados pelos deputados e senadores – para ficar na questão agrária, lembramos que a bancada ruralista é uma das maiores e mais coesas do Congresso. O fato é que as crises capitalistas se sucedem. E o capitalismo parece sempre capaz de se reinventar, inclusive na forma de grandes eventos esportivos, que se travestem de “oportunidades”, mas que têm demonstrado custos econômicos e humanos inaceitáveis. Sobre as atrocidades recentes da polícia militar, temos de lembrar que a polícia sempre torturou e matou pobres neste país. Durante a ditadura civil-militar, militantes operários e burgueses experimentaram essa mesma truculência em nome de uma “guerra antissubversiva” e do anticomunismo, quando prisões arbitrárias e torturas se tornaram política de Estado; e a imprensa, censurada, era obrigada a se calar. Temos de nos indignar e exigir mudanças urgentes na polícia, como a desmilitarização. Mas não podemos comparar nosso tempo com uma ditadura.

“Sonhos não envelhecem” como diz a música “Clube da Esquina nº 2”, de Milton Nascimento e Lô Borges [compositores brasileiros]?

CM – Sonhos não envelhecem, mas a forma de torná-los realidade se transforma no tempo. A maioria dos resistentes que pegou em armas nos anos 1960 e 1970, no Brasil, por exemplo, diz que essa forma de luta se revelou ineficaz. Frei Tito já fizera essa autocrítica em 1973, quando escreveu: “É necessário e urgente responder politicamente à ditadura. Nessa perspectiva, penso que a luta armada, como forma de luta principal, é um erro”. Por outro lado, não restam dúvidas de que, num mundo em que a concentração de riqueza só aumenta, a luta por justiça social é mais atual do que nunca.

Leneide, você mora em Paris. Qual sua percepção do Brasil hoje? E como o país é visto pelos europeus?

LDP – Vejo o Brasil com certa inquietação, sobretudo em ano eleitoral. As manifestações do ano passado mostram que o povo acordou de uma espécie de letargia. O governo federal e os governos estaduais precisam responder às demandas por melhores condições de saúde, educação e transportes urbanos. Mas estamos engatinhando no aprendizado da democracia. Somos ainda um país arcaico, com uma mentalidade escravagista profundamente interiorizada e arraigada nos nossos costumes. Os europeus, de uma maneira geral, sabem muito pouco sobre o Brasil contemporâneo e menos ainda sobre a ditadura brasileira. Eles conhecem muito mais a história das ditaduras argentina e chilena. O governo Lula [ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva] ajudou a forjar uma imagem positiva de um país que trabalha para diminuir as desigualdades sociais, mas temos um atraso muito grande. Basta ver que o acesso de todos à educação e à saúde de qualidade e gratuitas ainda é um sonho. Viver numa democracia madura e com a forte implantação do Estado de bem estar social como a França me leva a constatar, de maneira mais flagrante, o quanto o Brasil tem de caminhar para se tornar um país mais democrático, menos corrupto e menos desigual.


No livro, vocês dizem que os entrevistados que conviveram com Frei Tito tiveram suas vidas redesenhadas por ele. E as suas vidas também foram impactadas pela história do frade dominicano? De que forma?

LDP – O trabalho no livro me deu a oportunidade de me tornar próxima de religiosos que já admirava de longe, como Frei Betto. Conhecia o engajamento dos teólogos da libertação, o trabalho das Comunidades Eclesiais de Base e sempre admirei essa vertente da Igreja católica. Para mim, eles entenderam tudo da mensagem do Evangelho. Tito é um exemplo de coerência e desprendimento, que pagou com a vida seu engajamento ao lado dos oprimidos. Espero que o livro sirva para tornar mais conhecida a história de homens profundamente comprometidos com a Justiça.

CM – De forma radical. Hoje, percebo, com clareza, que temos a obrigação de trazer à tona a memória de duas décadas de ditadura civil-militar. Os trabalhos da Comissão da Verdade e a efeméride dos 50 anos do Golpe são oportunidades preciosas, pois, sem dúvida, os acontecimentos daquele período – e a falta de reflexão coletiva sobre eles – impactam ainda, de forma crucial, a política e a sociedade brasileiras. Como diz Vladimir Safatle, no prefácio do livro, “Neste contexto de invisibilidade e esquecimento forçado, o uso da memória é um ato político maior, pois impede que o tempo possa extorquir reconciliações meramente formais”. Não sou católica e nunca tive a instituição Igreja Católica em alta conta. Mas me alegrou muito poder conhecer religiosos (e ex-religiosos) brasileiros e franceses que desenvolvem um trabalho pastoral extremamente comprometido com a palavra de Jesus Cristo, e, consequentemente, com o povo, bem distante da Igreja de shows televisivos, videoclipes e posições conservadoras e moralistas – a imagem da Igreja Católica que, infelizmente, ocupa mais espaço na opinião pública.

 

 

 

 

 

 

 

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