Estrelas do Mar: bodyboarding como ferramenta de socialização

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Byron Silva (Foto: Waneska Cipriano)

Todas as manhãs de sábado, um clima de interação, alegria e disposição toma conta da praia da Arauna, na altura do bar Solarium, na capital sergipana. O local é ponto de encontro das atividades do projeto Estrelas do Mar, uma ação desenvolvida por cerca de 40 voluntários que utiliza o bodyboarding como ferramenta de inclusão social para pessoas – com algum tipo de deficiência ou não – que desejem conhecer a prática esportiva de perto.

A atividade é uma alternativa gratuita de diversão para crianças, adolescentes, adultos e idosos carentes que desejam interagir e experimentar novos desafios no mar. Manter o equilíbrio na prancha e dominar as ondas parece um detalhe: o importante mesmo é se divertir e fazer novas amizades.

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A equipe do Portal Inclusão Social teve a oportunidade de conhecer de perto a ação social e conversou com o voluntário Byron Silva, idealizador e coordenador do projeto Estrelas do Mar. Confira a entrevista:

Por Roseane Moura

Inclusão Social – Como surgiu o projeto Estrelas do Mar?

Byron Silva – O projeto surgiu em 26 de 2011 como homenagem ao surfista profissional Ailtinho ‘Kostela’, que sonhava em ter uma ação voltada para as pessoas que tivessem em situação de risco; adolescentes e crianças carentes que estivessem se inserindo no mundo das drogas ou no mundo do crime. Ele foi vítima da violência, daquilo que ele pensava em combater. Tentou evitar um roubo a uma criança que ele não conhecia, na região da Atalaia. Foi morto em troca de seis reais e um aparelho celular. Eu trabalho da Polícia Militar e na época desse crime estava atuando naquela região, mas não consegui evitar a morte do atleta que me inspirou a criar o projeto Estrelas do Mar. Não é apenas a repressão ao crime e ao tráfico de drogas que faz com que as mazelas sociais deixem de existir. Iniciativas como essa oportunizam saúde, diversão, qualidade de vida. Pensando nisso é que temos propagado essa corrente do bem, para que mais pessoas possam nos ajudar e fazer um diferencial na sociedade. O nome do projeto tem a influência especial de um conto: um escritor e um pescador andavam a beira da praia quando viram uma estrela do mar queimando ao sol. O escritor viu que o pescador jogava de volta ao mar estrelas que estavam ao sol e perguntou o qual o motivo que o levava a fazer aquilo, sabendo que não conseguiria devolver todas a tempo. O pescador então respondeu que estava fazendo a parte dele. Aquelas que ele pudesse devolver a vida, ele devolveria. Ele faria sua parte, tudo o que podia, mesmo sabendo que não poderia fazer por todos.

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Foto: Aline Batista

Inclusão Social – Quantas pessoas são beneficiadas pelas ações do projeto?

Byron Silva – O projeto existe há três anos, sempre realizado no mesmo lugar. Atualmente contamos com 87 pessoas, incluindo crianças, adolescentes e adultos. Não há limite de idade. Para dar conta deste público, contamos com cerca de 40 voluntários.

Inclusão Social – Como funciona o trabalho aos sábados?

Byron Silva – Nós chegamos aqui às oito horas e ficamos até meio dia, meio dia e meia, onde é feito um lanche com os presentes após as atividades no mar. Eles tomam banho e seguem para suas residências em um ônibus que foi cedido em apoio pela Secretaria de Estado de Esporte e do Lazer. Aqui a pedagoga orienta inicialmente uma atividade lúdica e de integração, proporcionando ao público diferenciar cores, objetos etc. Em seguida temos o momento onde o professor de educação física faz alongamento, aquecimento, tudo de forma lúdica, com utilização de música, dança, para que eles façam as atividades. Depois temos a parte prática do projeto, com as aulas de bodyboarding. Alguns voluntários são surfistas há muito tempo e eles passam para os alunos como eles se portarem no mar, a maneira correta de segurarem as pranchas. A parte que os alunos mais gostam é essa de ter contato com o mar. Todos os alunos, independentemente de ter ou não deficiência, somente entram no mar acompanhados por um adulto, o voluntário responsável.

DSCN8335Inclusão Social – O projeto Estrelas do Mar é voltado apenas para quem tem algum tipo de deficiência?

Byron Silva – Não, o projeto é de inclusão social e de interação. Nosso público é composto por muitas pessoas carentes, que não teriam condições de praticar um esporte radical. E as ações são feitas sem distinção de classe social ou condição física. Eles fazem as atividades em conjunto, harmonicamente, tendo ou não qualquer tipo de deficiência eles fazem juntos as atividades propostas.

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Inclusão Social – É possível apontar os impactos do projeto na vida do público beneficiado?

Byron Silva – Consigo observar muitos aspectos, além da interação com outras pessoas. Muitos deficientes têm hoje uma maior autonomia, como pentear o cabelo, vestir a roupa sozinho. Um exemplo: algumas pessoas com Down não conseguem distinguir os dias da semana, mas no sábado eles já estão com as roupas prontas. Na quinta ou sexta-feira eles já começam a arrumar a toalha na mochila, o protetor solar, a sunga ou biquíni, então conseguem reconhecer o lapso temporal de segunda até sábado, e que no sábado é o dia da atividade deles aqui.

Inclusão Social – Quais os parceiros atuais do projeto Estrelas do Mar?

Byron Silva – Temos atualmente parceria com a Secretaria de Estado de Esporte e do Lazer, que viabiliza o acesso do público até aqui. O ônibus espera todos em um ponto de encontro, que fica na Apae do bairro Industrial, e traz até aqui. A volta para casa ocorre da mesma forma.

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Inclusão Social – O projeto desenvolve atividades todos os sábados pela manhã. Existe a previsão de ações em outros dias?

Byron Silva – Lógico que se a gente tivesse infraestrutura e mais voluntários teríamos pelo menos mais um dia de atividade na semana, mas sempre esbarramos na dificuldade financeira ou pessoal. Tanto a alimentação servida ao final das atividades quanto as pranchas são trazidas pelos voluntários, por exemplo.

Inclusão Social – Quais as metas do projeto Estrelas do Mar para 2014?

Byron Silva – Pretendemos atingir objetivos qualitativos. Pretendemos demonstrar, por exemplo, que em seis meses eles baixaram o peso. Temos uma preocupação geral com a saúde deles. Então pretendemos que uma terapeuta ocupacional elabore atividades possíveis de fazermos com eles, não como ocorre em um consultório, mas aqui ao ar livre. Temos a perspectiva da criação de um site sobre o projeto para divulgar nossas ações de forma diferenciada da que já é divulgada em nossa fanpage no Facebook. Mas também seria muito interessante conseguirmos parcerias para melhorar a alimentação dos alunos aos sábados, renovação de equipamentos, inserção de novos profissionais na ação e de Pilates em nossas atividades. Mas não há como pensar em novas ações sem pensar em novas parcerias.

DSCN8353Inclusão Social – Você imaginava que a procura pelo projeto seria grande?

Byron Silva – Nós não tínhamos noção da quantidade de pessoas com deficiência que existia em Sergipe e de quanto elas eram carentes de uma atividade como a nossa. Em outros Estados existem atividades dessa natureza que são exclusivas para pessoas com deficiência, não como a nossa de interação, de socialização, sem tocar no ponto específico da pessoa com deficiência. Não fazemos algo voltado apenas para as pessoas com deficiência.

DSCN8357Inclusão Social – Como as pessoas interessadas podem conhecer ou contribuir com o projeto?

Basta acessar nossa fanpage www.facebookcom/estrelasdomar e entrar em contato que daremos retorno. Outra opção é nos fazer uma visita pessoalmente nas manhãs de sábado durante as atividades do projeto.

Fotos: Waneska Cipriano

 

Publicado em Entrevistas